sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Níveis de poluição no largo do Toural



Em 2013 foi apresentado pela Universidade do Minho um estudo do nível de poluição no centro de Guimarães. Esse estudo apresenta as diferenças do nível de poluição antes e depois da intervenção urbanística no Largo do Toural e na Alameda S. Dâmaso.

A particularidade deste estudo de compilação de informação quer do volume de tráfego automóvel quer dos níveis de partículas inaláveis e finas, conhecidas por PM10, ajudam-nos a falar com dados concretos sobre o nível de poluição atmosférica do Largo do Toural. O estudo apresenta uma percentagem de >41µg/m3 (maior que quarenta e um microgramas por metro cúbico) de partículas inaláveis e finas, cujo diâmetro médio é inferior a 10 mícron*, que segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) estaria no nível médio, segundo o índice da qualidade do ar. No entanto, o nível médio já é muito preocupante. Segundo a APA, no nível médio “as pessoas muito sensíveis, nomeadamente crianças e idosos com doenças respiratórias devem limitar as actividades ao ar livre.”




Se o parque de estacionamento for construído no miolo do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa com a entrada prevista pelo Toural, descendo a rua de Camões até à Travessa de Camões, é expectável que o número de automóveis aumente exponencialmente e em consequência o nível de poluição passe de médio para fraco, onde “as pessoas sensíveis (crianças , idosos e indivíduos com problemas respiratórios) devem evitar actividades físicas intensas ao ar livre. Os doentes do foro respiratório e cardiovascular devem ainda respeitar escrupulosamente os tratamentos médicos em curso ou recorrer a cuidados médicos extra, em caso de agravamento de sintomas. A população em geral deve evitar a exposição a outros factores de risco, tais como o fumo do tabaco e a exposição a produtos irritantes contendo solventes na sua composição.”

Conselhos de saúde em função do Índice da Qualidade do Ar

Para concluir, acreditamos que a construção do parque de estacionamento irá contribuir para que a vida quotidiana dos residentes das freguesias da cidade piore substancialmente e sofra um decréscimo do seu bem-estar.

Contrapomos a este projecto, tão pouco sustentável e ecológico, a criação de um jardim público que reponha os espaços verdes que nos forma retirados tão vilmente em 2012. Desta forma, contribui-se não só para o bem-estar mas também para a melhoria da saúde pública, pois, um jardim com árvores e plantas purifica a atmosfera do actual centro de Guimarães.

Notas:
* mícron - unidade de medida de comprimento que corresponde à milésima parte do milímetro.

Aspecto actual do interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Defesa de um jardim público







Algo do jardim edénico vive nos logradouros deste quarteirão.
Talvez a própria árvore da sabedoria habite entre essa esquecida vegetação.

Manuel José Fernandes (engenheiro florestal e investigador), sobre o interior do quarteirão Camões-Caldeirôa


As assembleias populares da Caldeirôa decorrem sempre que alguém ou um grupo de pessoas acha que é necessário tomar alguma decisão que envolve um grande contexto. Neste caso, a grande preocupação é o destino do interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa, em Guimarães.

Estas assembleias, sem filiação partidária, têm um funcionamento democrático diferente, por exemplo, do das assembleias municipais onde os grandes partidos políticos têm mais tempo de retórica do que os mais pequenos ou então pela eleição de um determinado deputado, esse será sempre o "escolhido" para falar, mesmo que se torne incompetente para o cargo. Nas assembleias populares, qualquer pessoa pode ser escolhida para determinada tarefa ou para representar o grupo. Por isso, o funcionamento das assembleias populares é sempre de respeito mútuo e de abdicação do poder sobre o outro. Também convém informar de que a participação nas assembleias é voluntária. Mesmo quem nunca participou nas assembleias anteriores pode comparecer e participar na próxima.

A Assembleia Popular da Caldeirôa foi constituída, em Julho de 2016, por um conjunto de pessoas preocupado com o resultado nefasto para o bem-estar comum se a construção do parque de estacionamento de Camões no interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa for executada.

Nesta 8ª Assembleia Popular da Caldeirôa que decorrerá no próximo Sábado, às 16:00, na Travessa da Caldeirôa, vamos discutir vários pontos como defender a criação de um jardim público em vez da ideia do parque de estacionamento e proteger os morcegos e a biodiversidade, acrescentando a esta ordem de trabalhos outros assuntos, que é um espaço aberto à introdução de outro ou outros temas à discussão.

O primeiro tema da discussão é muito urgente. À medida que o tempo avança torna-se mais difícil defender um espaço que pertence a todos nós. Dentro do interior do quarteirão existe uma área muito grande sem qualquer construção arquitectónica composta por imensas árvores e solo permeável que possibilita grandes espaços verdes.

Durante muito tempo os promotores do projecto do parque de estacionamento diziam que dentro do quarteirão não havia nada de valor e que por isso um parque de estacionamento com 440 lugares seria a solução. Enquanto não se soube o que realmente existia dentro do quarteirão, as pessoas deixaram-se ficar pela dúvida. No entanto, têm surgido muitas imagens e vídeos do interior do quarteirão que provam que o seu interior é muito rico, não só pelas árvores e biodiversidade, como pelo património arqueológico industrial existente, pela actividade cultural que funciona numa das fábricas a ser demolida e por ser uma área nobre da cidade a escassos metros do Largo do Toural que deixou de ser um jardim desde a sua última remodelação.

Se o interior do quarteirão fosse a única alternativa para tal emprendimento ninguém se insurgia contra tal projecto. O problema está em que nunca foram apresentados estudos de alternativas, assim como nunca foram apresentados os pareceres técnicos de arquitectos e outros especialistas sobre a viabilidade do local escolhido e do tamanho do parque de estacionamento. Assim como não são tornados públicos pareceres de organizações de protecção do património, como por exemplo o parecer encomendado pela CMG à ICOMOS (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios). A preocupação patrimonial não tem que ver apenas com o interior do quarteirão isolado, mas com a área de protecção à zona classificada de Património Cultural da Humanidade. A construção deste parque de estacionamento também viola a área que deverá integrar a proposta de inscrição da zona de Couros à classificação de Património Cultural da Humanidade (neste link podem ler uma publicação anterior com mais informação sobre o assunto).

A defesa de um jardim público cheio de árvores e espaços verdes para o interior do quarteirão é o mais lógico na actualidade da cidade de Guimarães. Este quarteirão fica a escassos metros do Largo do Toural e é constituído, essencialmento, por casas de habitação. O centro da cidade tem perdido espaços ajardinados, como aconteceu com o próprio Largo do Toural ou a Alameda S. Dâmaso. O interior do quarteirão delimitado pelas ruas de Camões, Liberdade e Caldeirôa não se pode transformar num espaço cimentado, sem espaços verde com grandes árvores e jardins coloridos. Um parque de estacionamento numa cidade pode ser comparado com uma arrecadação numa habitação que nunca fica na zona nobre da casa. O interior do quarteirão é uma zona nobre que a cidade ainda não descobriu. É nobre pela localização e pelo seu potencial em criar uma qualidade de vida melhor, principalmente ambiental, no centro da cidade.

Há mais informações a revelar sobre todo este processo e na próxima Assembleia Popular da Caldeirôa falaremos delas a quem não o tem acompanhado, assim como definiremos as próximas acções para a defesa do património que nos diz respeito a todos.



A 8ª Assembleia Popular da Caldeirôa vai decorrer no próximo Sábado, dia 14 de Outubro, às 16:00, na Travessa da Caldeirôa (ligação Rua da Caldeirôa à rua da Liberdade).











Nota 1: A fotografia do cabeçalho é do interior do quarteirão Caldeirôa, Liberdade, Camões e foi tirada na primeira semana de Outubro deste ano.

Nota 2: O desenho pretende ser um símbolo da protecção do interior do quarteirão e da sua biodiversidade, nomeadamente os morcegos que são uma espécie protegida por lei.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Manipular o público?

Há cerca de uma semana foi tornado público um vídeo promocional do futuro parque de estacionamento de Camões. Nesse vídeo foram usadas imagens ditas "reais" gravadas por um drone com visão aérea e imagens virtuais produzidas pelos autores do projecto. Em todas as imagens é notória a intenção de manipular o público. Assim, iremos usar frames desse mesmo vídeo para demonstrar essa manipulação, pois procederemos a uma análise crítica das mesmas.

O projecto apresentado pelo arquitecto Raúl Roque, e defendido por Domingos Bragança e Filipe Fontes, na sessão de esclarecimento de 22 de Maio, na Sociedade Martins Sarmento pouco tem a ver com o que é mostrado neste filme. Apenas o sítio e a função são iguais.

É a primeira vez que este vídeo é mostrado, apesar de ser possível que as imagens virtuais do filme já estivessem prontas aquando da sessão de esclarecimento, levando-nos a inferir que não houve coragem para mostrá-lo então. Imaginamos que a razão tenha sido porque sabiam que o projecto do vídeo não é o mesmo projecto que foi apresentado publicamente. Mas porquê mostrá-lo agora, sendo um projecto fantasma? Qual é o propósito de criar esta confusão no público?

Contudo, vamos analisar o filme. Este projecto ignora, entre outras coisas, o património arqueológico industrial que integra os pelames da antiga fábrica de curtumes da Caldeirôa. Não refere que a saída é na travessa da Caldeirôa e afirma haver uma cobertura ajardinada, quando apenas vemos uma placa de betão pintada de verde.


No entanto, este vídeo apresenta elementos visuais novos à discussão pública sobre o projecto. É a primeira vez que temos acesso a imagens aéreas da zona verde que fica a Norte do quarteirão. Essa zona pode ser vista no centro desta primeira imagem como uma grande mancha verde que, desastrosamente, será destruída. Com essa destruição desaparecerá uma zona considerável de solo permeável. Não nos podemos deixar enganar pela cor verde da cobertura do edifício (imagem abaixo).



Esta imagem, sendo visível à direita a rua da Caldeirôa, e ao fundo o largo do Toural e Alameda S. Damaso, mostra-nos não só o resultado do arboricídeo no miolo do quarteirão Camões-Caldeirôa como também se vê a imagem enganadora de um parque de estacionamento ladeado de árvores. É um artifício que os arquitectos e construtores usam regularmente para convencer de que o futuro daquele espaço vai ser ideal, todavia não passa de uma ficção. Tudo à volta pertence a particulares que manterão os logradouros da forma que entenderem. A imagem virtual apresenta os logradouros cheios de árvores e até sem divisórias entre os terrenos. Esta fantasia dá-nos a ideia de que aquele terreno vai ser todo para o público em geral, quando na realidade as pessoas apenas andarão na cobertura do parque de estacionamento, sem sombras e com o cheiro desagradável típico dos parques de estacionamento.

A manipulação visual é mais aguda com as três seguintes imagens. Estes lugradouros pertencem às casas entre os números 31 e 75 da Rua de Camões, portanto, fora da zona a "intervir". Porque usaram estas imagens?







Não acreditamos, aliás, que tenham pedido autorização aos proprietários para filmarem o terreno em visão aérea. A acrescentar, referimos que estas imagens não dignificam os próprios donos dos terrenos e casas. As imagem têm apenas o propósito de enganar. Não é falta de rigor da filmagem, é uma tentativa de manipulação da opinião pública, passando a ideia de que o interior do quarteirão está todo em ruína.

As seguintes imagens mereceram o nosso reparo pelo seu absurdo. As imagens geradas por computador são sempre "irreais". A higiéne demonstrada no vídeo com paredes limpas, espaços iluminados, atmosfera pura e pessoas a passearem tranquilamente será impossível em qualquer parque de estacionamento.



A segunda imagem aparece mais ou menos no primeiro meio minuto do filme. Apresenta-nos uma entrada a partir da Travessa de Camões como se estivessemos a entrar numa catedral. O filme apresenta a relação entre o automóvel e os transeuntes como se fosse harmoniosa. Trata-se de um defeito deste género de filmes. Nas imagens virtuais com pouco rigor técnico tudo nos parece igual: o corpo humano é da mesma matéria que o automóvel, o betão tem a mesma textura que a erva, etc. É a própria linguagem binária que cria estas sensações. Neste caso, nem a imagem virtual consegue disfarçar a possível austeridade que é a entrada de um parque de estacionamento.



A área que vêem à direita, para além do muro, pertence a particulares. Está fora da zona a "intervir". A ironia mais flagrante e mais ignóbil neste frame é que apresenta esta entrada como se fosse um pequeno bosque, mas para a fazerem, terão de demolir dois edifícios do centro histórico e arrancar, só nesta área de 5 metros, várias árvores, nomeadamente, uma grande camélia, uma palmeira, vários loureiros, e outras árvores que ainda precisamos de catalogar.

A seguinte imagem aparece no vídeo aos 2 minutos e 58 segundos e é uma perspectiva esclarecedora do enquadramento do parque no miolo verde do quarteirão. Toda a área que é apresentada com árvores não pertence à CMG e não tem este aspecto de jardim verde contínuo. Os logradouros exteriores à zona a "intervir" não têm tantas árvores. Isto é claramente uma tentativa de criar uma imagem de jardim que não é, nem será, real.



Os logradouros dos particulares têm mais expressão topográfica do que aquela que é demonstrada nesta imagem. Há muitos elementos a destacar como os vários desníveis, muros de separação, hortas e hortelãos e caminhos que atravessavam o interior quarteirão.

Porém destacamos esta imagem por nela estar claramente demonstrado que este projecto apenas traz betão e vários planos austeros pintados a verde. Sabemos que este projecto está inserido no programa de candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia 2020 em que se fomenta a sustentabilidade e biodiversidade, mas esta obra faraónica não serve a nenhum dos conceitos. Aliás, a "cobertura verde" nem para flores servirá.

Em forma de comparação mostramos esta imagem numa outra perspectiva e concluímos que a integração da volumetria dos edifícios existentes é mais "natural" para a cidade. O parque de estacionamento é um bloco de betão descaracterizado que é enterrado no miolo de um centro histórico.




Como é do conhecimento geral, dentro deste quarteirão existe um conjunto de pelames (tanques de curtimenta) que já foram arqueologicamente catalogados. Estes pelames deveriam ser conservados e incluídos na candidatura da zona de Couros a Património Cultural da Humanidade. Com este projecto esse património arqueológico industrial será destruído e porá em causa a própria candidatura, como já apresentamos numa publicação anterior.

O local dos pelames fica sensivelmente entre a parte central dos círculos a vermelho, o caminho pedonal do primeiro plano e o paralelipípedo cinza oco que parece ser uma caixa de escadas.





Planta dos vários tanques
que se encontram no subsolo de uma das fábricas.


Este processo do parque de estacionamento de Camões já provocou a expulsão de pessoas do centro da cidade. Em Novembro de 2016, um casal que vivia há 35 anos neste quarteirão foi expulso para a periferia da cidade.



Entre Outubro de 2016 e Maio de 2017, por pressão conjectural, saíram cinco artistas dos respectivos ateliers que funcionavam numa das fábricas a ser demolida. Na casa que vêm a cinza, mesmo antes da entrada dos carros (imagem acima), vive um casal há 50 anos. Claro que na imagem virtual parece apenas um edifício inerte, como que dispensável. Se o parque de estacionamento for construído as janelas dos quartos dessa casa ficarão ao nível dos faróis dos automóveis, a escassos 2 metros. Será que alguém da CMG apresentou o projecto ao casal que mora nesta casa?


Aspecto do atelier em Novembro de 2017
Fotografia do jornal online Free Pass


Na fábrica, desde Setembro de 2012, já trabalharam muitos artistas. Alguns ficaram apenas meses, e outros tentaram construir o seu mundo com o tempo útil de produção e organização. Actualmente, só trabalham lá dois artistas (também habitam o espaço um gato e uma cadela). Todos os outros saíram, faseadamente, pela pressão desta construção do parque. A enriquecer a dinâmica artística da produção, também existe um espaço de exposições que abriu ao público em Setembro de 2015.



O último plano do filme é muito particular e refuta os defensores do parque de estacionamento. Neste plano vemos um desenho a vermelho definindo a área de intervenção da CMG, e a 100 metros podemos ver três parques de estacionamento praticamente vazios (desenhos elípticos laranja foram feitos por nós). Não vamos falar da capacidade de cada parque porque já o fizemos em publicações anteriores, mas afirmamos que este plano confirma o que temos vindo a dizer há cerca de um ano. Este último plano é muito particular porque a realidade "trai" os produtores deste filme.



A maioria perde se este parque de estacionamento for construído, por isso continuaremos a defender este quarteirão contra a sua morte defendida por poucos. Em jeito de comentário partilhamos uma expressão que foi usada na sessão de esclarecimento por um elemento da CMG: "com o parque de estacionamento vamos criar um espaço público de qualidade". A nossa questão a colocar a esse senhor é se ele prefere passear na cobertura de parques de estacionamento ou se prefere um jardim concreto como este que apresentamos abaixo que é o jardim da Estrela, em Lisboa. Adiantamos que a nossa próxima fase é defender a criação de um parque público de qualidade no centro da cidade com árvores gigantes e que fiquem velhas tão velhas que nenhum dos presentes, actualmente, veja a sua morte.
Ou seja um projecto não para os próximos 20 ou 30 anos como advogam os defensores desta atrocidade ambiental. Mas um legado intemporal para todos os cidadãos presentes e futuros.
Este é o nosso sonho, um sonho para todos e onde podemos todos usufruir de uma vida sadia e feliz, e como diz o poeta "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce."



Abraços,

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O parecer da ICOMOS deve ser do conhecimento público


Ontem houve trabalhos com maquinaria pesada dentro do quarteirão Camões-Caldeirôa. Estranhamos esta movimentação porque ainda há muitas perguntas fundamentais por responder sobre o projecto do parque de estacionamento delimitado pelas ruas de Camões, Caldeirôa e Liberdade.

Sessão de esclarecimento a 22-05-2017 na S.M.S.
Na mesa estavam, da esquerda para a direita,
Raúl Roque, Domingos Bragança, Alexandra Gesta e Filipe Fontes.
Na sessão de esclarecimento que decorreu na Sociedade Martins Sarmento, no passado dia 22 de Maio foi dito pelo presidente da Câmara Municipal de Guimarães, em funções, que  tinha pedido um parecer à ICOMOS (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios). Este parecer é relevante pela importância reconhecida desta organização, e porque a zona de construção encontra-se na "zona de protecção" do centro histórico a escassos metros do núcleo classificado de Património Cultural da Humanidade.  Apesar deste parecer não ser vinculativo para determinar se o projecto do parque de estacionamento é executado ou não, ele demonstra se a opção é a indicada para a valorização do património da cidade. 

Nós sabemos que o parecer da ICOMOS já foi enviado à Câmara Municipal de Guimarães, por isso, esperamos que ele seja divulgado publicamente e que possa ser tomado em consideração pela relevância que ele representa.


Entretanto, nas obras que decorreram ontem, foi demolida uma parede de uma das fábricas situada no interior do quarteirão, assim como foi destruído parcialmente um muro de pedra que pertencia a um caminho pedestre que era utilizado por antigos moradores e trabalhadores da Caldeirôa. Este caminho com a largura aproximada de um metro circunda o exterior da fábrica onde se situam os vários tanques da antiga indústria de curtumes. Este não é o único percurso existente, há mais. As pedras retiradas do seu local não foram numeradas o que demonstra que não foi tido em consideração o tipo de zona delicada do ponto de vista arqueológico. 


Aproveitamos esta publicação, também, para avisar os técnicos da CMG que não podem demolir parcialmente ou na totalidade nenhum edifício do interior deste quarteirão sem antes ser vistoriado por uma equipa credenciada pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas). Existem morcegos dentro deste quarteirão e como foi anunciado neste blogue, os abrigos de morcegos são protegidos por lei (Decreto 31/95 de 18 de Agosto).



sábado, 19 de agosto de 2017

Morcegos no interior do quarteirão Camões-Caldeiroa


No interior do quarteirão Camões-Caldeirôa, em Guimarães, existem, provavelmente, várias espécies de morcegos. Nesta publicação mostramos várias fotografias. Faltam estudos de reconhecimento sobre a(s) espécie(s) e sobre os locais de abrigo. Toda a família dos morcegos está protegida pelo Acordo sobre a conservção dos morcegos na Europa através do Decreto 31/95 de 18 de Agosto. Realizado à luz da Convenção de Bona e aplicando-se a todas as espécies de morcegos existentes em Portugal, este Acordo inclui algumas obrigações fundamentais, sendo esperado que se adote e cumpra as medidas legislativas e administrativas necessárias à sua implementação.

O Acordo sobre a Conservação das Populações de Morcegos Europeus (Eurobats) foi realizado à luz da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras Pertencentes à Fauna Selvagem (Convenção de Bona) aberta para assinatura a 23 de junho de 1979, em Bona.

O Acordo sobre a Conservação das populações dos Morcegos Europeus baseia-se nos seguintes pressupostos:

a) no reconhecimento do estatuto de conservação desfavorável dos morcegos na Europa e nos Estados não europeus da área de distribuição, e em particular a séria ameaça que sobre eles paira decorrente da degradação do habitat, da perturbação dos abrigos e de certos pesticidas; e
b) na consciência de que as ameaças que os morcegos enfrentam na Europa e nos países não europeus da área de distribuição são comuns tanto a espécies migratórias como não migratórias e de que os abrigos são partilhados frequentemente por espécies dos dois tipos.

São obrigações fundamentais deste Acordo:
1 - proibição da captura deliberada, aprisionamento e morte de morcegos;
2 - identificação dos locais importantes para o estatuto de conservação destes animais;
3 - conservação dos habitats importantes;
4 - tomada de medidas para promover a conservação destas espécies e consciencializar o público; e
5 - desenvolvimento de programas de investigação.

A complementar este texto deixamos aqui uma ligação a literatura que diz respeito à relação das cidades com os abrigos dos morcegos. Pedimos desculpa pelo texto ser em inglês. 
Chamamos particular atenção para o ponto 6 do artigo que foca a atenção na relação dos morcegos com os edifícios Património da Humanidade.


Fontes:
ICNF
UNEP/EUROBATS Agreement on the Conservation of Populations of Europeans Bats
EUROBATS - Publication series n.º 4


Mais fotos dos morcegos do interior do quarteirão:














Também deixamos aqui um vídeo com a alegria do contacto com os morcegos.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Proposta Zona de Couros como Património Cultural da Humanidade




"La ocupación del territorio tiene la lógica de lo físico, de lo ambiental y de lo histórico. Bajo estas consideraciones se decanta el patrimonio cultural y una forma de vida vinculada a las relaciones de trabajo y al aprovechamiento eficiente de los recursos disponibles en el entorno próximo y lejano.
Llama la atención que en la ocupación del territorio, no se aprecie el predominio de manchas compactas de edificaciones, como sucede en la mayor parte de los países europeos; por el contrario, los caminos, no las plazas ni los espacios públicos, aparecen como las líneas estructurantes del caserío, de forma similar a lo que sucede en la Europa medieval."


Anexo IV . Guimarães Patrimonio de la Humanidad.
El agua, la Penha y el Couros.
Jorge Benavides Solís (Doutor Arquitecto)
(http://www.cm-guimaraes.pt/…/write…/document/5634/Anexo4.pdf)

Este excerto foi retirado da proposta de inscrição que visa a classificação da Zona de Couros como Património Cultural da Humanidade, alargando a área actualmente classificada - “Centro Histórico de Guimarães” - e redefinindo os limites da zona tampão de protecção à(s) área(s) classificada(s). (http://www.cm-guimaraes.pt/pages/1206).

A construção do parque de estacionamento Camões-Caldeirôa vai destruir a possibilidade de obter essa classificação por várias razões: a relação de necessidade entre a indústria de curtumes e a água vai deixar de ser visível; o património industrial que se foi desenvolvendo no século XX no interior do quarteirão, primeiro com a indústria de curtumes e depois com a tecelagem e tinturaria oferecem o contexto arqueológico aos tanques de curtimenta existentes. Nestes dois casos o parque de estacionamento apagará todo o cadastro territorial da zona. Será um apagamento histórico não só dos edifícios mas também da memória colectiva da cidade.
A ampliar a perda arqueológica também se destruirá a relação de relativa harmonia entre a flora e fauna dependente do solo permeável da zona. A título de exemplo, referimos a grande quantidade de morcegos, pardal-comum e andorinhão-preto, todos insetívoros.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

7ª Assembleia Popular da Caldeirôa


A reabilitação do interior do quarteirão delimitado pelas ruas Camões, Caldeirôa e Liberdade ainda não está resolvida. O projecto do parque de estacionamento de 440 lugares, com o custo de € 8 Milhões de euros, não é a solução.

Na sessão de esclarecimento sobre o futuro parque de estacionamento, que decorreu no passado dia 22 de Maio, na Sociedade Martins Sarmento, percebeu-se que o projecto não é consensual. Não foram apresentados argumentos e/ou estudos concretos que ditem o parque de estacionamento como única possibilidade para o quarteirão. Não é um projecto consensual, nem ao nível técnico, visto que a partir das palavras de vários arquitectos, esta é apenas uma decisão política. E não é consensual porque os moradores, utilizadores, comerciantes e cidadãos não foram ouvidos nem considerados. É um projecto monstruoso e oneroso para uma cidade classificada como Património Cultural da Humanidade e que pretende ser Capital Verde Europeia. Além disso, destruirá solo permeável, património arqueológico industrial e provocará mais trânsito e poluição nas ruas de acesso ao parque (D. João I, Dr. Bento Cardoso, Camões, Liberdade e Caldeirôa) com consequente perda de qualidade de vida para todos e para todas.

Na 7ª Assembleia Popular da Caldeirôa vamos falar de alternativas para o interior do quarteirão; vamos falar da criação de uma associação e/ou comissão de moradores para salvaguardar o interesse comum, e assim, acautelar a qualidade de vida daqueles e daquelas que realmente se importam com as suas vidas no quarteirão e na cidade.


Hora e local:
15 de Julho de 2017 (sábado), às 16h00, na travessa da Caldeirôa, em Guimarães.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

António Amaro das Neves: Notas à margem duma "sessão informativa"

O artigo que se segue foi publicado por António Amaro das Neves no blogue Memórias de Araduca, no dia 23 de Maio de 2017.

Fica aqui a partilha autorizada do seu texto e o convite para seguirem o seu blogue.




A “sessão informativa sobre o projecto de execução do parque de estacionamento adjacente às ruas da Caldeiroa, Liberdade e Camões”, ontem promovida pela Câmara Municipal de Guimarães na Sociedade Martins Sarmento, se foi pouco informativa, foi muito esclarecedora, ao permitir consolidar a ideia de que não há argumentos técnicos, económicos, urbanísticos ou sociais que justifiquem o esbanjamento de dinheiros públicos numa obra que tem tudo para vir a ser um elefante branco de dimensão quase faraónica.

Ainda não consegui perceber a intenção que presidiu à opção pelo modelo adoptado na sessão. Era sabido que havia um pedido de um debate público, que a Câmara teria recusado, para depois avançar com aquela “sessão informativa” que, se não foi um debate público, não se percebe bem o que terá sido.

Quem chegava ao magnífico Salão Nobre da Sociedade, era capaz de pensar que a Câmara terá preferido a posição que lhe seria mais confortável, evitando partilhar a mesa com quem defendesse opiniões contraditórias com as suas. Afinal, essa ilação estava errada. Logo no arranque da sessão se percebeu que na mesa havia quem tivesse opinião contrária ao projecto, tendo-a exprimido com toda a clareza da sua voz. E aquela não era uma voz qualquer: era a voz que nos habituámos a reconhecer, ao longo de várias décadas, como a que falava pelo processo de requalificação que levou o Centro Histórico de Guimarães à classificação como Património Mundial. “Nós, os técnicos, damos pareceres; o executivo decide” — foi uma expressão que me ficou a retinir nos ouvidos. Claro como a água: a decisão de avançar com obra tão desmesurada, quanto desnecessária, não é técnica, é política.

Tenho a dificuldade em perceber o argumento de autoridade repetido e sublinhado, um tanto fora de tom, pelo presidente da Câmara (algo como: quem decide sou eu, porque posso, quero e mando). Por outro lado, não me parece líquida a afirmação de que o projecto em discussão estava legitimado em eleições, uma vez que fazia parte do programa eleitoral com que se submeteu a votos.

Vejamos o que dizia o tal programa, a este propósito:

"Construção do parque de estacionamento da rua de Camões potenciador da qualificação urbanística de um interior de um grande quarteirão localizado no centro da cidade, de apoio aos moradores e à actividade diária da cidade, nomeadamente comércio e serviços;"

Este ponto do programa da candidatura socialista às autárquicas de 2013 replica o que vinha sendo dito, desde 2009, pela equipa que projectou a requalificação do Toural e da Alameda, com base no respectivo Plano de Mobilidade Viária e Transportes Públicos, elaborado pelo Eng. António Babo. Efectivamente, aí se previa a possibilidade de criação de um parque de estacionamento entre a Caldeiroa e Camões, para apoio aos moradores e às actividades de comércio e de serviços da cidade, que serviria de mote para a requalificação do interior degradado daquele quarteirão. Mas, o que então se previa, era um parque de superfície, com capacidade para 120 lugares, como em boa hora recordou o Arq. Ivo Oliveira, professor da Escola de Arquitectura da Universidade do Minho. Algo completamente diferente da solução agora em discussão.

Do que assisti da sessão de ontem, ficam as perguntas por responder. Onde estão os estudos prévios de mobilidade urbana que fundamentam a necessidade e a adequação deste projecto? Onde estão os números que demonstram a taxa de ocupação dos parques já existentes?

E não basta responder, como se respondeu, que “há muitos estudos”. Se os há, porque não se mostram?

Sou solidário com os moradores da rua de Camões que se queixam da degradação e dos ratos que têm o seu habitat no espaço para onde está projectado o parque de estacionamento. Mas não me parece que se justifique gastar tanto dinheiro para exterminar uns quantos ratos ou tratar dos terrenos deixados ao abandono pelos seus proprietários. Para quem ainda não percebeu a dimensão do que ali se vai enterrar, 8 milhões de euros!, recorda-se que é muito mais do que o que se investiu em todo o processo de requalificação do Toural, da Alameda, do Campo da Feira e da rua de Santo António (6 milhões de euros). Uma barbaridade, especialmente incompreensível num concelho com tantas carências.

Esta é, manifestamente, uma obra que não serve os interesses de Guimarães, nem dos vimaranenses. Se prevalecesse o bom senso, este era o momento em que se parava para estudar melhor e verificar se esta é a solução que melhor serve a cidade. Houve tempos em que era assim que se procedia por cá. Mas, depois do que ouvi ontem, já não tenho a certeza de que ainda haja o bom senso que dantes havia.

terça-feira, 16 de maio de 2017

AVISO: Discussão pública adiada por tempo indeterminado

Por motivos que nos são alheios, fomos informados no final da noite de ontem, dia 15, pela Sociedade Martins Sarmento que a discussão pública a realizar no dia 22 de Maio, sobre o tema parque de estacionamento Camões-Caldeiroa, foi adiada por tempo indeterminado até nova comunicação.

Guimarães, 16 de Maio de 2017

Assembleia Popular da Caldeiroa

segunda-feira, 15 de maio de 2017

DATA IMPORTANTE: 22/Maio - 21:30 - Discussão Pública

No próximo dia 22 de Maio, segunda-feira, às 21:30, vai decorrer uma discussão pública sobre o processo e projecto do futuro parque de estacionamento Camões-Caldeiroa, no salão nobre da Sociedade Martins Sarmento, na rua Paio Galvão, em Guimarães.

A discussão pública será organizada pela Sociedade Martins Sarmento e contará com a presença de representantes da Câmara Municipal de Guimarães.

A discussão pública foi solicitada à direcção da Sociedade Martins Sarmento, a 17 de Fevereiro de 2017, por um grupo de cidadãos e cidadãs em representação de um descontentamento popular face a uma decisão da Câmara em desenvolver uma intervenção urbanística sem dar quaisquer informações aos seus munícipes, moradores, comerciantes e demais interessados. Este grupo propôs esta discussão pública por parecer injusto que - sem um debate e consenso alargado - se altere irreversivelmente um Património que se mantém vivo após mil anos de desenvolvimento desta cidade.

A discussão pública é de entrada livre e tem como objectivo apresentar informação aos cidadãos e às cidadãs sobre o processo e consequente projecto para o miolo do quarteirão das ruas Camões, Caldeiroa e Liberdade, e, assim, promover a participação cívica dos interessados e das interessadas no levantamento de questões sobre o assunto.